De maneira inédita, convidamos quatro alunos de diferentes universidades de São Paulo (Anhembi-Morumbi, ECA-USP, FAAP e Senac) a acompanhar a Mostra Competitiva Internacional e produzir reflexões críticas sobre o conjunto de filmes. Quatro textos com visões, gostos e opiniões diferentes, enriquecendo o debate já tradicional dentro do Festival Brasileiro de Cinema Universitário.
O Cinema Como Algo Maior
Em seus melhores momentos, esta edição do FBCU, em sua Mostra Competitiva Internacional, foi capaz de trazer ao público uma miríade de confrontações – estéticas, morais, sociais – com o mundo, com o Outro, e com os nossos tempos. A diversidade temática e formal dos curta-metragens apresentados demonstrou uma multiplicidade de posturas cinematográficas, mas também desvelou um esforço constante de comprometimento com a representação no Cinema. São filmes feitos por jovens cineastas, estudantes universitários, que se desdobram para olhar a vida e o mundo com acuidade e honestidade. É claro, vale ressaltar, que pela natureza de filmes universitários, muitas das vezes estes curtas tropeçam em excessos visuais, vícios estéticos, atrofia de discurso e uma angústia por querer tudo ao mesmo tempo. É compreensível, pois somos estudantes, estamos nos atirando no mundo, ansiosos pela resposta do público, procurando uma direção em tempos bastante confusos.
Estes tempos difíceis, este mundo louco e contraditório, aliás, parece ser, no fundo, o objeto que todos os curtas tentam representar, cada um a sua maneira. Representá-lo e encará-lo, denunciando a estranheza e mediocridade como regra que assola as sociedades atuais. Os curtas do FBCU trouxeram à tona a estranheza de uma existência opressiva, destituída de humanidade, egocêntrica, decadente. Porém, souberam também extrair desta pedra bruta e violenta o respiro poético, aquele que nos permite dar mais um passo, seguir em frente. Alguns dos filmes mais instigantes foram aqueles capazes de elaborar esteticamente o gosto doce-amargo da humanidade, sem cair em extremismos simplistas. E fizeram isso com extensa elaboração estética, explorando a correspondência de conteúdo e forma em sua potência. Aqui seguem breves comentários sobre alguns filmes que se destacaram no festival.
O curta argentino Eloisa, de Ramiro Diaz é um exemplo. Para mostrar a concretude do cotidiano de uma faxineira e empregada doméstica, a sequidão e a economia de recursos visuais são levadas ao limite; simplicidade usada para mostrar todo um mundo particular e universal a uma só vez. O filme congrega na sua sintaxe visual e mise-en-scène as contradições sociais, o desconforto das relações sociais de trabalho e status quo aos quais Eloisa é submetida. Mas em sua cena final, o filme torna-se mais do que um retrato social. Seu ato final mistura ternura, confere humanidade à personagem justamente por trazer poesia à sequidão até então mostrada assim como realça e reafirma o comentário que pretende fazer. O final do filme é, pois, um grito de liberdade, a ação dramática da personagem em toda a sua potência simbólica.
As grandes indagações misturadas ao concreto da vida humana em toda a sua trivialidade é representado com exatidão no finlandês Miten Marjoja Poimitaan, de Elina Talvensaari. Neste filme, a estratégia do microcosmo é utilizada para abordar uma situação ampla e geral. Ele dá conta de muitos temas – as relações econômicas, os conflitos sociais, a decadência, o confronto de idéias – buscando beleza nos objetos representados e documentados, mas sem negar a gravidade dos assuntos abordados. Foge dos moldes tradicionais de documentário, além de revelar concisão e densidade através de imagens que evocam não só a situação retratada – os colhedores de cerejas domésticos e estrangeiros e a desconfiança entre eles – como traz à tona uma atmosfera insólita, onírica, cinematográfica. Um documentário que é mais que um documentário, é um poema sobre a mente finlandesa e sobre o ser humano.
Em The Agony And Sweat Of The Human Spirit, de Joe Bookman, as dores da existência são tratadas com delicadeza surpreendente, mas sem condescendência. O tom tragicômico é combinado com a intenção (alcançada) de se distanciar do tom superficial das comédias atuais assim como dos dramas excessivos. Assim, acompanhamos a relação estranha, porém familiar deste músico calado e seu empresário inclinado a digressões verbais. Com o uso intenso de diálogos, algo raro nos filmes desta mostra, o curta norte-americano é muito bem sucedido em uma mise-en-scène que mistura momentos de impessoalidade e momentos de extrema humanidade.
Já em Farewell Facebook, de Joep van Osch, a estranheza da existência é trabalhada a partir de uma investigação sobre o Facebook e as relações que uma rede social institui, um tema atualíssimo. Ao brincar e testar a estrutura do documentário, mas sem exageros, este filme holandês expõe as indagações típicas de um mundo digital, dominado pelas redes sociais, colocando em xeque os dilemas sociais do mundo virtual, as novas “regras de etiqueta” e os novos códigos de conduta. Assim, o filme escancara certas situações como em uma comédia do absurdo, ao passo que também explora transformações comportamentais do mundo da Internet, com um leve toque amargo de quem detecta o absurdo de tudo e se sente incomodado com a estupidez generalizada.
A dor, a solidão, o luto, a superação. Em Rousek, de Tomás Klein, o realizador jovem olha para a perspectiva de morte e finitude dos mais velhos. O filme da República Tcheca se constrói como um retrato duro e suave do ritual particular de encarar a morte ao contar a história do Senhor Rousek. Tudo ocorre rapidamente, não passa de um dia, mas o filme abrange um mundo de sentimentos e emoções através de um cuidado com a estruturação de cada gesto e olhar, de cada ação dramática que emana tensão e significado, tudo balanceado com noção de ritmo e carinho com os personagens.
O francês Jours de Colère, de Charles Redon, assim como Eloisa, se realiza a partir do cotidiano representado com rigor visual. Há forte comprometimento com a mise-en-scène como concretização formal, isto é, elaboração estética de um comentário social, confiando na imagem como veículo do discurso (este emana da imagem, assim o filme não resulta em proselitismo), resultando em um curta em que forma e conteúdo se fundem. Assim, o filme é um panorama urgente, incisivo, tenso e contundente da questão do imigrante ilegal na Europa – mas consegue, ao mesmo tempo, ultrapassar o comentário de cunho social, transcendendo-o através do desenrolar da ação e da atitude de seu personagem. Portanto, nada mais emblemático de uma geração do que Léopold, o protagonista, o imigrante ilegal, escalando uma árvore ofegante e desesperado por liberdade. Em seu desenrolar, o filme é um manifesto do espírito humano e não uma constatação social; ele é sobre a busca por autonomia, dignidade e fuga da opressão.
Os filmes aqui comentados são uma amostra de que discursos e ideias podem e devem ser expressos formalmente e que a concisão natural do curta-metragem pode se tornar um suporte notável para a manifestação densa e profunda de problemáticas do homem contemporâneo. São filmes que criam universos particulares, específicos, identificáveis em suas nacionalidades, mas, ainda assim, capazes de suscitar universalidade, como toda obre de arte deve almejar. São filmes jovens em sua construção estética, podem ser criticados por diversos ângulos, no entanto, não deixam de trazer angústia e paixão pelos temas tratados. Por fim, são filmes cujos realizadores perceberam que não basta o discurso colocado sobre formas cinematográficas comuns e insípidas. Para fazer valer a ruptura, o desejo de mudança e demonstrar uma verdadeira postura de engajamento diante das aflições e dores do homem – sejam elas existenciais, econômicas, culturais, sociais ou afetivas – a mudança começa na postura estética do Cinema que devemos fazer. Pois o Cinema é Arte e esta só sobrevive produzindo a exceção à regra, demonstrando capacidade de escapar e transgredir os modelos estabelecidos, de romper criticamente com as formas estéticas balizadoras do pensamento e voltando nosso olhar para a Vida, seja com pessimismo ou otimismo. O panorama do cinema universitário mundial apresentado pelo 16o FBCU demonstra que nossa geração, mesmo que ainda hesitante, pode contribuir expressivamente para a finalidade maior da Arte.
Por Pedro Américo





