Críticas - Mostra Competitiva Internacional - Guilherme Farkas
Mon, 15 aug


De maneira inédita, convidamos quatro alunos de diferentes universidades de São Paulo (Anhembi-Morumbi, ECA-USP, FAAP e Senac) a acompanhar a Mostra Competitiva Internacional e produzir reflexões críticas sobre o conjunto de filmes. Quatro textos com visões, gostos e opiniões diferentes, enriquecendo o debate já tradicional dentro do Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

 


Um misto de urgência e angústia.


A produção de curtas-metragens brasileiros e internacionais compartilha, em graus variados de intensidade, da mesma sensação e aproximação com o ‘mundo vivido’ (o que alguns teóricos da produção documental substituem pelo termo 'realidade', que filosoficamente nos traz grandes complicações).

Se existe hoje alguma tendência estética e/ou temática na realização do filme de curta duração, o 16º Festival Brasileiro de Cinema Universitário com certeza nos aproximou dela. A formação e o estudo de cinema se constrói de forma heterogênea. Intersecções se tornam o mote principal e grande leitmotiv que mobiliza estudantes de diversos locais do mundo a fazer cinema. De onde vem essa vontade? De que trata e de onde surge esse inconsciente coletivo? As respostas a essas perguntas puderam ser rascunhadas durantes as instigantes sessões que  tive o prazer de assistir no Cinusp Paulo Emílio.

A princípio tais filmes nos remetem a experimentações estéticas, porém se analisados isoladamente é possível a identificação de certos traços marcantes na aproximação de questões como imigração, trabalho escravo, morte, gêneros e até mesmo um curioso casal que se relaciona de forma tímida e inocente em um trem na República Tcheca. É claro que não estamos falando aqui de um grupo sólido e restrito de filmes, visto que a Mostra Competitiva Internacional é formado por 30 curtas-metragens. Dentre esses 30 filmes, alguns são mais representativos que outros, como é o caso do francês "Jours De Colére" (Dias de Cólera) de Charles Redon, que trata da questão da imigração e o também interessante alemão "Der Brief" (A Carta) de Doroteya Droumeva que nos apresenta uma temática bastante pessoal sobre gravidez e aborto.

O diálogo no cinema estudantil é sempre um tabu, muitas vezes significa o enterro do filme. Mas em “The Agony And Sweat Of The Human Spirit”, de Joe Bookman e D. Jesse Damazo, essa opção dramática foi muito bem explorada com diálogos rápidos e ácidos. Diz-se muito, do ponto de vista do som no cinema, que a opção pelo diálogo anula alguns outros recursos narrativos do som, esvaziando seu potencial e construindo narrativas pautadas em cima de atores e diálogos muitas vezes mal executados. Felizmente não é o caso desse filme da Universidade de Iowa, mas pode ser pensando em outros casos, especialmente na produção universitária brasileira (posso dizer pela produção de curtas da Anhembi Morumbi e a baixa qualidade dos diálogos).

Outra questão que me chamou bastante atenção é a realização de filmes que, contrariamente a construção de longas-metragens, consegue se constituir propriamente como um curta-metragem. Parece-me útil lembrar aqui de como o curta-metragem brasileiro sofreu radicais transformações no ano de 1987 e no período de melhor funcionamento da “Lei do Curta”, que ficou conhecido como a ‘Primevera do curta’. Essa data é marcada pelo início de profundas transformações na linguagem do curta-metragem que marcou um nova forma de encarar e produzir o filme de curta duração. Digo que sinto em curtas-metragens brasileiros de hoje um herança de linguagem no que foi produzido na segunda metade da década de 1980. Um curta-metragem que se pensa como uma linguagem que lhe é própria, e não um “achatamento” do longa-metragem. Reconheço ainda que o filme de curta-metragem acaba se tornando, no Brasil e no mundo, uma espécie de cartão de visita para a possível realização de um longa. É claro que por ser de mais fácil acesso economicamente, tal formato se aproxima de estudantes e diretores de primeira viagem.  Não seria saudável encará-lo apenas como uma forma de acesso ao longa, o filme de curta duração é outro orgão, com ligações e funcionamentos altamente complexos e que se mantém ainda hoje inexplorados.

O que para mim ficou muito nítido com a programação do 16º FBCU é a clara falta de comunicação entre as diferentes escolas de cinema e audiovisual brasileiras. São sempre iniciativas externas (também interessantes) que ligam os estudantes, mas nunca são eles mesmos que decidem promover ações de fortalecimento e difusão de suas obras. Me parece que existe uma certa richa, que claro cria uma competição saudável, mas que muitas vezes faz com que continue a se produzir filmes assistidos por pequenos grupos de amigos que nunca chegam a dialogar com outras escolas de cinema. A não ser o louvado trabalho dos festivais de cinema que exibem o formato de curta-metragem, o estudante de cinema parece embriagado pela sua reificação erudita, herança autoral, que muitas vezes revela traços burgueses de isolamento artístico. É preciso uma maior atenção aos problemas que o cinema brasileiro, incluo aqui também o cinema não estudantil, sofre e uma reflexão sobre possíveis estratégias de ação. Nada mais natural e saudável que essa problemática seja introduzida ainda na escola, através de uma disciplina voltada a programação de festivais, curadoria, produção, enfim, uma política do cinema estudantil. Que esse belíssimo trabalho realizado pela equipe do FBCU sirva de exemplo para nós, estudantes de cinema.

 

Guilherme Farkas

São Paulo, agosto de 2011