De maneira inédita, convidamos quatro alunos de diferentes universidades de São Paulo (Anhembi-Morumbi, ECA-USP, FAAP e Senac) a acompanhar a Mostra Competitiva Internacional e produzir reflexões críticas sobre o conjunto de filmes. Quatro textos com visões, gostos e opiniões diferentes, enriquecendo o debate já tradicional dentro do Festival Brasileiro de Cinema Universitário.
Nosso tempo
“Eu não consigo me ver, então como eu poderia ver você?” esta frase dita por Maja, personagem principal do filme Die Brief, de Doroteya Droumeva, é muito sintomática das relações que figuram nos curtas metragens presentes na mostra competitiva internacional do Festival Brasileiro de Cinema Universitário.
Em parte dos filmes, a narrativa se concentra em uma personagem, a acompanha e revela um mundo subjetivo, pois mediado pelas questões, ações e sensações daquela que observamos. Em muitos deles a narrativa se coloca “ao lado” destas subjetividades, e por mais que as acompanhe, não é afetada por suas emoções, em outros, porém, é contagiada por elas, emoções estampadas nas imagens e sons.
Filmes centrados em um “eu”, seres totalmente individualizados, com suas ações cotidianas específicas, suas questões particulares, seus mundinhos fechados. Personalizar, porque para ser mesmo é necessário ser diferente, seja no jeito desajustado das personagens de Gömböc, de Ulrike Vahl, como o menino que usa a máscara de Darth Vader e acredita ser o personagem, ou fazer algo incomum como o menino de Pig, de Tom McKeith, que mata um porco do mato como forma de se aproximar e consolar sua mãe.
Personagens isolados em suas subjetividades peculiares, presos em suas questões, não conseguem dialogar com o mundo a sua volta, seja por eles mesmo, seja pelo próprio mundo...ou ambos. Deslocados dentro de suas realidades, com problemas em seu entorno, uma morte, uma gravidez ou por um constante e próprio, como o nome do filme brasileiro revela, “Descompasso” com o mundo, como dialogar? Como enxergar o outro quando a realização pessoal, o respeito às subjetividades em detrimento da coletividade, próprio da ideologia individualista, é o que mais ou só importa?
Seres, na maioria das vezes, apáticos, tristes, ensimesmados. No filme Shelley, de Andrew Wesman, a protagonista de mesmo nome, na falta de comunicação com os pais, os quais, aliás, jamais aparecem como imagem no filme, mas apenas como vozes, vozes gritadas, acaba matando para resolver seu problema. Um ato calmo, quase que corriqueiro e sem tons trágicos. Horas após a ação, come uma torta de frutas vermelhas... A morbidez nas ações.
Ao mesmo tempo em que os filmes se aproximam da vida cotidiana ao retratarem as “pequenas” ações de suas personagens como o preparar de uma refeição, tomar um copo de leite ou o caminhar, eles se afastam desse comum do dia a dia não só pelas peculiaridades de seus personagens e de suas ações no mundo, como já foi dito, mas, principalmente, por proporcionar algo que nos dias de hoje quase inexiste: os filmes nos fazem observar um outro e dão tempo para que esse outro seja mostrado. O que se descobre sobre este outro é pelo simples olhar a vida, sem a necessidade de explicações. Mais diz o que é comum, do que o extraordinário. Planos longos de um olhar, um choro, um hesitar, uma espera. O que seria talvez um tempo morto, a não ação, o não desenvolvimento de uma história, é o que mais de revelador temos na tela.
A apatia e a morbidez das ações e dos olhares, o silêncio das vozes, a violência como resposta à falta de diálogo. Nosso tempo retratado.
Isabella Lourençon Vidal





