Mostra Homenagem Eduardo Santos Mendes
Algumas Sondas Sonoras de uma Vaga Idéia-Cinema
Foi só por mera contingência técnica, ou algum acidente incidental na trilha, que o cinema desde seu começo não teve imagem e som integrados num mesmo compósito material. Porque no cinema das origens, som havia, e soava. E se ouvia. Ao redor da tela até poderia estar um primitivo sistema múltiplo de 5.1, brutalista e de uma variedade anárquica que não se continha entre dois dígitos ou dedos de perfuração.
Sob a institucionalização que codificou a convenção clássica, o filme domesticado calou aquele selvagem cinema do espanto e das sonoras atrações, cortando o som ao vivo. E então foi aquela acústica que nos acuda, do som precário e pesado para uma imagem escravizada na câmera imóvel. Assim houve a separação que não ouve. (Quem se dispor, em transporte temporal, a ouvir a seqüência de “Santoscópio = Dumontagem” que inicia com o rufar de tambor e a imagem girando em seu eixo, conhecerá algo da festa que rolava na esfera sonora da era do cinema “silencioso”.).
Os artistas criativos do filme “mudo” não admitiam que, para abrir a boca e ficar falado, o cinema tivesse que ficar quieto, falhado, renegando áureos movimentos e ângulos de câmera. Queriam um filme de fato sonoro, em que o som (ruídos, vozes, músicas) fosse matéria de metáfora como as imagens prodigiosas do cinema... calado.
O cinema teve que atingir a idade balzaquiana para que o som ocupasse o mesmo corpo físico da imagem. Mas, mesmo assim (anunciando a escala subalterna a que seria relegado), ao som coube um espaço marginal: duas tripas verticais fora do fotograma de imagem 35mm. No entanto, seja como periferia ou baliza, a tripa pode ser vértebra.
Essas condições (separação imagem-som e hierarquia som à imagem) foram dois dos parâmetros que regeram meu pensar-fazer filmes. Mas cada projeto era uma história e demandava desafios específicos. Como re-produzir o soundscape dos 78rpm, com sua glória de estalos e cacos? Como re-produzir o espectro inaugural da poesia, com sua fábrica de vidros e ruínas? Quais as correspondências sonoras para o flicker e o loop?
Para o cinepoeta metahistoriador, que esboça constelações de ressonâncias improváveis (a contrapelo das teleologias triunfantes), é uma situação que exige tomada de posição e manifesto. Uma consciência que ousa fazer da produção de um filme uma reinvenção do cinema. Tais ideias foram reverberando na câmara anecoica da memória, enquanto buscava a afinação de um texto que pudesse ecoar a estampa de fina escuta.
Para concretizar estruturas e respostas (mesmo que a solução seja outra indagação) no campo sonoro de um filme, o que também significa trabalhar a instância (do texto ao contexto) daqueles aspectos mais amplos, históricos e estéticos, do som no cinema, encontrei em Eduardo Santos Mendes um interlocutor privilegiado. Com o fascínio intrínseco à escuta, Edu pensa o som com o ouvido na imagem.
Quando eu mesmo não executei (isto é: operei os instrumentos) minha edição de som, só admiti que fosse o Edu a fazê-lo ou supervisionar. Assim como só confiei a mixagem e a masterização de minhas bandas sonoras ao José Luiz Sasso – mixador máximo, meu favorito, e também parceiro do Eu (outro acorde em comum entre nós).
Meus filmes conjugam / conjuram elaboração conceitual e experiência sensual. Nunca recusei investir na radicalização das concepções sonoras. Porque sabia que o Edu retribuiria à altura da pauta, não se limitando à exigência da proposta, mas expandindo-a com imaginação sensível. Se às vezes ele se fazia de rogado no diálogo arrojado, enganosamente estranhando a meta ou o método sincopado, logo embarcávamos nas ondas da sintonia, compasso de freqüência, marés em fase.
Não sei o que ele falou na palestra “A construção da relação audiovisual na obra de Carlos Adriano”, num seminário acadêmico sobre “documentário e experimentação”. Para quem ouve filmes de fora, talvez nem dê para imaginar como um rigoroso processo de articulação imagem-som pudesse ser divertido. Acho que nossa conversa sonora funcionava tão fácil em tópicos tão difíceis por conta da afinidade cinefílica, da simpatia do afeto e de termos em comum o (s)elo da academia.
Além de artesão de som, Edu é um sound scholar; pioneiro de uma abordagem criteriosa e criativa da disciplina do som na universidade. Não fui seu aluno na graduação, mas no mestrado fiz o curso Projeto de Som (o trabalho: “Porviroscópio”). No curto-circuito reflexão-atuação, Edu promove uma re- integração contemporânea do som à imagem. Sem paradoxo, é alguém da área de som que compreende o valor do silêncio para a imagem. Nele, o professor e o editor são orelhas da mesma conversa.
Dos 11 filmes que fiz em 22 anos, ele está creditado em edição e/ou desenho de som em quatro deles: “A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha”, “Das Ruínas a Rexistência”, “Santoscópio = Dumontagem” e (repartindo o crédito, porque operei os aparelhos) no primeiro longa e último filme, “Santos Dumont pré-cineasta?”. Mas ele esteve, de algum modo, em todo trajeto; desde “Suspens” (1988-1989, conclusão da graduação na ECA), quando por acaso entrou no estúdio e eu tentava gravar um engasgue de disco no engate do trem de Lumière, e depois facilitando o estúdio da escola às produções seguintes (“A Luz das Palavras”, 1991-1992; “Remanescências”, 1994-1997). Dizer que esteve no processamento sonoro dos três primeiros (indiretamente) e dos três últimos (diretamente) não é pouco.
“Santoscópio = Dumontagem” foi meu último filme a que Bernardo Vorobow assistiu. Com o repertório e a sensibilidade de extraordinário programador e produtor de cinema (juntos fizemos todos meus filmes desde o segundo, pois o primeiro foi feito na escola – “Suspens” traz uma dedicatória a ele, atualizada em “Santoscópio”), Bernardo aconselhou (generosa voz-guia de minha vida): se “S=D” era meu primeiro SR-D, por que não radicalizar, projetando o som para todos subtons que a licença Dolby concede? O trabalho de Eduardo Santos Mendes em meus filmes é a sonda sonora de um pensamento polifônico, que capta o chamado da aventura ao desconhecido e pratica a “poética da arqueologia da invenção” (Bernardo diria). Para quem tem ouvidos para ver e olhos para ouvir, esta amostra traz filmes que, eloqüentemente, por si mesmos, falam. E calam. Como a borda do som que sustenta o fotograma. Como o silêncio que, para além das evidências e dos mistérios da imagem, a quase tudo ou nada, induz. Ou diz.
Carlos Adriano
Cineasta e doutor pela ECA-USP. Sua obra completa foi exibida nos festivais do Rio (2002), Locarno (seção Cineastas do Presente, 2003) e Videobrasil (eixo curatorial, 2007); teve filmes exibidos no MoMA-NY e É Tudo Verdade, entre outros festivais.
Resumir a vida de alguém em poucas palavras não é tarefa fácil. No caso de Eduardo Simões dos Santos Mendes, a tarefa é mais árdua ainda, até pelo fato de sua trajetória estar em plena construção. Professor, editor de som, técnico de som, sound designer, mentor sonoro para mim e com certeza para muitas outras pessoas, Edu é tudo isso e muito mais. Alem de um grande amigo.
Falando do Professor Doutor Eduardo Santos Mendes, tive a honra de ter sido aluno de sua primeira turma na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Recém saído da faculdade, lá estava Edu de volta, poucos anos depois, para compartilhar conosco, naquele momento, uma experiência já rica e sólida. Lembro que nos seus primeiros meses como professor, possivelmente pelo fato de estar ainda no início de uma carreira (tanto acadêmica quanto profissional), Edu se fazia vários questionamentos, o que certamente é natural para quem acabou de sair da faculdade e que opta pela carreira em cinema. Tais questionamentos eram ricos em sua essência e fundamentais para quem segue pelo cinema e, para quem pudesse e soubesse compartilhá-los, eram fonte de aprendizado não só de cinema mas também de vida. Edu abria sua casa para termos aula, para podermos ouvir seu amado Apocalypse Now em boas caixas de som; forçava-nos a ouvir e entender o silêncio, conseguia emprestado microfones para aprendermos a escutar, numa época em que a Universidade ainda carecia de uma estrutura melhor: enfim, abria sua vida pra que pudéssemos brincar, nós também, nesse parque de diversões chamado cinema. Com isso, ao longo dos anos, surgiu, por meio da ECA/USP, uma referência no som do cinema brasileiro, ou seja, pessoas que têm como dom principal a habilidade de pensar o som e entender o som como elemento da narrativa. Convém ressaltar: uma área que normalmente atrai poucos interessados, seja pelo pouco glamour, seja pelas dificuldades que impõe, surpreendentemente ao longo dos últimos vinte anos tem atraído mais e mais pessoas, fato que torna o mercado, hoje, bem servido de profissionais. Por tudo isso, tenha a certeza que nosso Prof. Eduardo Santos Mendes tem papel mais do que significativo nesse processo.
E tenhamos certeza que Edu, envolvido com cinema desde o berço, embora seja sabidamente um “cara do som”, é e sempre será um professor com quem se pode aprender muito sobre cinema, não apenas sobre som. Com ele, você encontrará muito conhecimento sobre as questões do cinema, seja na estruturação de uma produção, seja no funcionamento de um set de filmagem. E definitivamente, sua maior riqueza consistirá em estruturar um roteiro, utilizando o som como valiosa ferramenta. Ou, no mínimo, aprenda com ele a ouvir um filme, descobrindo ali uma riqueza anteriormente ignorada.
Neste momento, ao se homenagear Edu Santos Mendes, presta-se reconhecimento a alguém que se dedicou de coração ao cinema e que traz uma tradição familiar de encantamento com o cinema e as outras artes. E a trajetória do Prof. Edu certamente continuará a incentivar pessoas e mais pessoas a brincarem com as ferramentas que o cinema disponibiliza. E da mesma forma como Edu soube valorizar o papel do som para sua geração, estimula e continuará estimulando a que outros o façam, hoje e amanhã. Parabéns Edu, que essa trajetória maravilhosa prossiga nos anos futuros.
Luiz Adelmo
Luiz Adelmo formou-se em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez Mestrado e Doutorado na área de som cinematográfico. É sound designer, mixador,editor de som e técnico de som, além de autor do livro “Som-Imagem no Cinema”, publicado pela Editora Perspectiva / SP em 2003.
Nos últimos 20 anos, o ensino da relação imagem-som mudou radicalmente em grande parte das escolas de cinema e audiovisual brasileiras. Quando fui aluno, a disciplina de som se restringia a ensinamentos de eletrônica, ondulatória, e técnicas de operação do gravador Nagra e de captação de microfones.
Hoje, além das mesmas informações que recebi, os alunos aprendem também a pensar o uso narrativo da trilha sonora. Aprendem que a trilha sonora deve ser concebida no momento de escrita do roteiro. Aprendem que a sonoridade da obra e sua relação audiovisual, que só irá se concretizar na finalização, já deve ser clara no momento da filmagem.
Aprendem que é possível estimular sensorialmente os espectadores para muito além do emprego semântico das palavras. Que tanto música quando ruídos podem transmitir informações e gerar novas condições mentais ou emocionais.
Aprendem que a trilha sonora altera a percepção da imagem, influi na consciência do tempo de leitura e direciona o olhar na tela.
Aprendem que a capacidade sensorial do som pode se expandir até a impressão física. Que o som é capaz de induzir no espectador reações por um processo de recepção o qual caminha longe da racionalização.
Felizmente já se foi o tempo onde um bom som era aquele que permitia ao espectador entender tudo o que estava sendo dito. Hoje as boas escolas ensinam aos seus alunos que a verdadeira relação audiovisual se expande para além da imagem e da palavra.
E é essa relação que procurei demonstrar na escolha dos filmes da pequena mostra que acompanha esta mais que gentil homenagem que o FBCU me faz. Filmes onde o ver e o ouvir são fundamentais para a interpretação da obra. Onde não há hierarquia entre seus elementos formadores. Onde os estímulos visuais e auditivos interagem e se completam para uma leitura integral.
Muito obrigado ao Festival Brasileiro de Cinema Universitário pelo reconhecimento de minha trajetória didática e que venham cada vez mais filmes onde a relação imagem∕som ou som∕imagem seja a essência da obra.
Eduardo Santos Mendes
Eduardo Santos Mendes, nosso homenageado, é professor do Curso Superior do Audiovisual e membro efetivo do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da Universidade de São Paulo. Atua também como sound designer tendo participado em obras de Carlos Adriano, Carlos Reichenbach, Chico Teixeira, Eduardo Valente, Flávio Frederico, Roberto Moreira, Rossana Foglia, Rubens Rewald, Tata Amaral e Walter Hugo Khouri, entre outros. Ele fez a curadoria da Mostra, escolhendo O Pântano, por considerar o trabalho de som exemplar e Através da Janela e os curtas do diretor Carlos Adriano por ter participado da concepção sonora.













