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Paulo Emilio sempre me deu a impressão de merecer uma homenagem a cada ano. Isso não significa, é claro, a sua transformação em “bode exultório” da nacionalidade – o contrário do bode expiatório –, como ele gostava de se referir aos ídolos pátrios Rui Barbosa e Santos Dumont. Que ela esteja sendo feita por meio de números “redondos” (25 anos da morte, 10 anos do Festival Universitário) traz uma ironia que teria agradado ao novelista de Três mulheres de três pppês, envolvido com a numerologia de conseqüências amargas para os seus personagens.

Neste 10º Festival Brasileiro de Cinema Universitário Paulo Emilio foi escolhido para ser homenageado. Nada mais justo para alguém que esteve à frente do primeiro curso universitário de cinema do país, integrando a experiência de Darcy Ribeiro na Universidade de Brasília, em 1962. Naqueles tempos pioneiros e de pobreza franciscana, Paulo Emilio ensinava Humberto Mauro, um exemplo de cinema inventivo mas sem muitos recursos, sina que também cruzou a vida do cineasta francês Jean Vigo, enquanto os alunos se exercitavam na atividade cinematográfica com o professor Nelson Pereira dos Santos, fazendo um planejamento exaustivo para o uso de uma câmara sem filme, porque não havia recursos para tanto. Sangue Mineiro e L’Atalante estão no 10º Festival, lembrando o autor dos clássicos livros Jean Vigo e de Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte assim como outros realizados por seus alunos na também pioneira Escola de Comunicações e Artes da USP. Um dos representantes na mostra é Nitrato, de Alain Fresnot. A particularidade desse curta-metragem, que nesse ano está comemorando o seu trigésimo aniversário de produção, outro número “redondo”, encontra-se tanto na presença do ator Paulo Emilio, quanto no desastre por que passava a Cinemateca Brasileira, carente de recursos, vivendo somente do esforço de um grupo de jovens entusiastas arrebanhados pelo carisma do diretor Paulo Emilio.

Estas poucas linhas não fazem justiça à grandeza de Paulo Emilio. Mas a simples lembrança e o entusiasmo do 10º Festival Brasileiro de Cinema Universitário completarão o quadro. E isto significa muito.

JOSÉ INACIO DE MELO SOUZA
Bacharel em História e doutor em Cinema pela ECA/USP.
Pesquisador desde 1987 e autor da biografia de Paulo Emilio
Salles Gomes, Paulo Emilio no Paraíso.

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