| Ruy Guerra
Falar do artista rigoroso e inquieto que
escaneia a alma humana com suas câmaras
e suas luzes, do buscador de sentimentos
profundos, do cineasta de certa maneira
dostoievskiano?
Falar do diretor meticuloso e experimentador,
que dá igual peso ao roteiro exaustivamente
elaborado e ao vento da inspiração
que soe acontecer no momento da filmagem?
Falar do internacionalista que escolheu
o Brasil como sua locação
principal e trata de compreender nossa profundidade,
revelar o que está por trás
da pretensa cordialidade carioca (Os Cafajestes),
das nossas ondas de militarismo (Os Fuzis),
da política oligárquica (Os
Deuses e os Mortos), da relação
da sociedade afluente com os índios
(Quarup), da migração nordestina
(A Queda)?
Ou do cerzidor de magias (Sweet Hunters,
Erêndira), de coreografias políticas
(Ópera do Malandro) e de realimentações
estéticas (Estorvo)?
Talvez falar do escritor, do cronista,
ou do poeta que se expressa em canções,
parceiro de Edu Lobo, Milton Nascimento,
Francis Hime, Chico Buarque?
Ou mesmo do homem que vive dentro do artista,
do Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira com
seu bom humor, com seu mau humor, com seu
jeito surpreendente de ser amigo, com sua
entranhada vocação de amante
latino, com sua personalidade forte, sua
honestidade seminal, sua irradiante identidade
afro-européia-americana e sua alegria
de viver?
Cada um desses aspectos vale um livro,
que dirá umas poucas linhas como
estas. Situação que me induz
não a falar, mas a chamar a atenção
para outro aspecto deste ser multifacetado,
desta criatura prismática: Ruy Guerra
ator. É a sua manifestação
menos comentada, menos levada em consideração,
sempre à sombra do cineasta, do poeta,
do agitador.
Um ator feito à medida para o cinema,
contido, denso, despojado, conhecedor das
técnicas de Stanislavski e das nuances
específicas da atuação
cinematográfica, da intimidade dessa
atuação. Refiro-me às
suas personas em SOS Noronha de Georges
Rouquier, em Benito Sereno de Serge Roullet,
em Le Maître du Temps de Jean-Daniel
Pollet, em Aguirre, a Cólera dos
Deuses de Werner Herzog e na fina sensibilidade
de sua composição em Sweet
Hunters, um filme radical e esplendente.
Chamar a atenção porque
um entendimento da arte de Ruy Guerra só
será completo e claro se essa faceta
estiver incluída, e bem incluída
já que ela é parte integrante
da intervenção do artista
em sua época e no mundo, e também
porque um grande ator não deve viver
à sombra de um diretor, por maior
que ele seja. Fica a sugestão para
os jovens do Festival Brasileiro de Cinema
Universitário: estudem o Ruy Guerra
ator e, aí, possivelmente vão
encontrar uma chave importante (talvez A
Chave) para fruir ainda com mais intensidade
a emissão humanística do autor
de Les Hommes et les Autres, título
revelador de seu primeiro filme, do curta-metragem
que realizou na escola de cinema, no IDHEC
de Paris.
Orlando Senna
Secretário do Audiovisual e Homenageado
no 2o Festival Brasileiro de Cinema Universitário
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